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Conheça o 4daddy, site de informações para pais

Leandro Ziotto é um típico representante de uma família mosaico. Ele é pai de Vinícius, de 10 anos, filho de sua ex-companheira. Eles se conheceram quando o garoto tinha 3 anos e estabeleceram um vínculo que nem a separação afrouxou. “O pai biológico de Vini é presente. De forma burocrática, mas é um pai presente. Mas é em mim que Vini se apoia, ele me vê como figura paterna e me chama de pai. A minha paternidade foi muito empírica e intuitiva. Fomos nos aproximando e quando a gente percebeu, já éramos uma família. Com a nossa particularidade, mas éramos uma família”, conta Leandro, que hoje está casado com Luísa.

Pois foi no começo dessa paternidade construída que Leandro se deparou com um questionamento. Ao procurar informações no google sobre como fazer uma criança dormir, ele percebeu que a grande maioria dos textos era voltado para as mães. “ Até a quarta página do google só tinha matérias para as mães. Eu fiquei muito incomodado. Não acreditava que eu não teria competência para colocar uma criança pra dormir. Percebi que a cultura machista não violenta apenas as mulheres, ela também castra homens em sua sensibilidade e afetividade”, afirma. Por isso Leandro lançou, em 2016, o 4daddy, uma plataforma com informações sobre crianças voltadas para pais. Ele ainda organiza cursos e workshops em escolas, comunidades, empresas. “Quero mostrar o quanto essa figura e essa função são importantes para o desenvolvimento das nossas crianças.”

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Co.madre: Qual o objetivo do 4daddy?

Leandro: O objetivo é sensibilizar a sociedade civil e o Estado sobre a importância da figura paterna para o desenvolvimento de nossas crianças e adolescentes, baseada numa criação afetiva, social e cidadã. Também participamos de grupos de trabalho na Rede Nossa SP e Rede Nacional Primeira Infância, com a missão de influenciar políticas públicas sobre esse assunto.

Co.madre: Você sente abertura entre os homens para esse tipo de informação e conhecimento?

A aceitação é ótima, tanto por pais quanto por mães. Mas aceitação não basta. A admiração não gera ação. Mas vejo uma nova geração de homens e pais que estão dispostos a acertar e equilibrar essa conta de séculos com as mulheres. Estamos muito longe do ideal. O machismo ainda existe e está enraizado em todos nós, homens e mulheres. Mas vejo com entusiasmo a quebra, ou pelo menos, a tentativa de quebra, desses paradigmas.

Co.madre: Me fale um pouquinho sobre como você enxerga essa nova paternidade que estamos tentando construir.

Eu enxergo com muito carinho, entusiasmo e motivação. Mas com um certo ceticismo pra não me deixar cair em armadilhas, pois ainda estamos muito longe do ideal. Temos uma conta negativa com as mulheres e com o mundo de séculos. E novas ondas, culturas e gerações podem ser facilmente cooptadas pelo mercado. Vemos marcas aproveitando essa oportunidade, e isso só distorce a nossa real missão. A revolução da mulher/mãe é para fora, é de luta, ocupação do espaço que lhe foi tirado. A revolução do homem é interna, para dentro, consigo mesmo para se reposicionar nesse mundo e nas novas dinâmicas familiares e sociais.

Co.madre: Qual seria seu conselho para um homem que será pai em breve?

O meu conselho é que ele "AJA". E se policie todo dia. Pai não ajuda, pai cria! Medo faz parte. Erros acontecerão! E que não tente copiar modelos e pessoas. Ninguém será melhor pai pro seu filho do que você mesmo.

Pelos direitos dos meninos

Reproduzimos a seguir texto da jornalista Silvia Amélia Araújo:

 

 

"Que nenhum menino seja coagido pelo pai a ter a primeira relação sexual da vida dele com uma prostituta (isso ainda acontece muito nos interiores do Brasil!)

Que nenhum menino seja exposto à pornografia precocemente para estimular sua “macheza” quando o que ele quer ver é só desenho animado infantil (isso acontece em todo lugar!)

Que ele possa aprender a dançar livremente, sem que lhe digam que isso é coisa de menina

Que ele possa chorar quando se sentir emocionado, e que não lhe digam que isso é coisa de menina

Que não lhe ensinem a ser cavalheiro, mas educado e solidário, com meninas e com os outros meninos também

Que ele aprenda a não se sentir inferior quando uma menina for melhor que ele em alguma habilidade específica – já que ele entende que homens e mulheres são igualmente capazes intelectualmente e não é vergonha nenhuma perder para uma menina em alguma coisa

Que ele aprenda a cozinhar, lavar prato, limpar o chão para quando tiver sua casa poder dividir as tarefas com sua mulher – e também ensinar isso aos seus filhos e filhas

Na adolescência, que não lhe estimulem a ser agressivo na paquera, a puxar as meninas pelo braço ou cabelos nas boates, ou a falar obscenidades no ouvido de uma garota só porque ela está de minissaia

Que ele não tenha que transar com qualquer mulher que queira transar com ele, que se sinta livre para negar quando não estiver a fim – sem pressão dos amigos

Que ele possa sonhar com casar e ser pai, sem ser criticado por isso. E, quando adulto, que possa decidir com sua mulher quem é que vai ficar mais tempo em casa – sem a prerrogativa de que ele é obrigado a prover o sustento e ela é que tem que cuidar da cria

Que, ao longo do seu crescimento, se ele perceber que ama meninos e não meninas, que ele sinta confiança na mãe – e também no pai! – para falar com eles sobre isso e ser compreendido

Que todo menino seja educado para ser um cara legal, um ser humano livre e com profundo respeito pelos outros. E não um machão insensível!

Acredito que se todos os meninos forem criados assim eles se tornarão homens mais felizes. E as mulheres também serão mais felizes ao lado de homens assim. E o mundo inteiro será mais feliz. O machismo não faz mal só às mulheres, mas aos homens também, à humanidade toda."