Maternidade

#Newsletter: Criar filhos é passar de fase no videogame

Oi, Cos, Ju Mariz falando.

Outro dia uma amiga comentou: "criar filhos é como passar de fase no vídeo game." Ela quis dizer que quando a gente pensa que dominou o "esquema" com os filhos, as demandas mudam. Pulamos de fase, viramos a chavinha, ganhamos novos poderes. Concordo, Dani.

Photo by Pat Kwon on Unsplash

Minhas filhas têm 8 e 5 anos. A rotina mudou porque as duas estão na mesma escola. Ganhei tempo e melhorou a logística. A dinâmica entre elas também é outra. Interesses e assuntos convergem, o que gera união e também discussão. Minha abordagem está tendo que mudar também. E, obviamente, esse game não vem com manual.

E nós, manejando esse console, também sentimos novas ( ou velhas ) necessidades. A maternagem nesse estágio traz outros dilemas. Nossos anseios mudam ou ficam ainda mais latentes. Rolaram novas inquietações aqui dentro. Espero que alguém, desse outro lado aí, me entenda. :)

Uma dessas inquietações resultou em abandonar o home office. Trabalhava em casa há 8 anos. Sempre disciplinadinha e guardando alguns incômodos para debaixo do tapete da sala. Esse ano resolvi colocar a cara pra fora. Havia uma necessidade pessoal por mais inspiração e produtividade, necessidade de cuidar da coluna e, sim, uma sensação de que precisava cortar o cordão umbilical com as meninas (mais uma vez!). Tô feliz nessa nova fase do meu Atari particular. Espero que eu morra poucas vezes, consiga pular todos os obstáculos e encontre o pote de ouro no final da jornada. 

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Uma misturadinha de links para contar o que rolou por aí: :)

# Carga mental. Nesse post aqui uma mãe faz uma carta para o marido mostrando o quanto ela está cansada e precisando de apoio. O texto viralizou, obviamente. 

# Mães empreendedoras. Deu ruim para o Sebrae. Esse texto da Ana Bavon, da Feminaria, denuncia que mães empreendedoras não são bem vindas na Feira do Empreendedor, organizado pelo orgão. 

# Carreira. Nadine Gasman, da ONU Mulheres Brasil, fala sobre a importância de políticas públicas e privadas para promover uma vida melhor às mulheres. Aqui.

# Feminicídio. Somos o 5 país que mais mata mulheres no mundo. E como ficam as crianças,  vítimas invisíveis dessas agressões? Essa matéria explica

 

Mães de obra: Adriana e suas três meninas

Mães de Obra, de Camila Mendonça e Juliana Mariz, é um projeto que fotografa a rotina de uma mãe com o filho. São mães empreendedoras ou autônomas que se desdobram para conciliar carreira e maternidade. Queremos chamar a atenção para este aspecto e atrair olhares empáticos para essa mulher-mãe.

A personagem da vez é a arquiteta Adriana Bersou Ruão que, quando tornou-se mãe, resolveu empreender com a amiga Adriana Albuquerque. Elas fundaram a Panonacama, uma marca de roupas de cama para crianças. 

Adriana rodeada por Marina, Isabel e Gabriela

Adriana rodeada por Marina, Isabel e Gabriela

 

Saudade é pra quem tem, já diz a música de Marcelo Camelo. 

E mães têm de sobra. 

Mas é doído esse relógio no pulso da mãe. 

Ele marcava a hora da mamada. Agora ele marca a hora de buscar na balada.  

O minuto que aconteceu esses cliques já foi. As meninas de Adriana cresceram. 

Mas elas seguem deitando juntas na mesma cama. Brincando, rindo e jogando o travesseiro. 

Mães e filhas tentam fazer o relógio parar.  Dobrando o lençol. Falam sem parar.

Adriana olha embevecida. Leva a mão ao fronte, como um aconchego para contemplar.

Dá um leve suspiro. Daqueles quase silenciosos. 

Sim, é ela, a saudade que acaba de passar. 

TEXTO | JULIANA MARIZ  FOTO | CAMILA MENDONÇA

Quer ver mais? Mães de obra: Bárbara e Irene

Quer saber mais sobre o projeto Mães de Obra? Mande um email para oi@comadre.me

 

 

 

Desmistifica, vai

Por Juliana Mariz

Está em curso uma discussão produtiva, democrática e autêntica sobre a maternidade. Vários textos reflexivos que rolam na internet tocam em um ponto em comum: a desmistificação da maternidade.

 

Eu ainda não tinha filhos quando o desabafo de uma amiga sobre ser mãe me tocou profundamente. Estávamos em pleno voo, quando ela começou a me contar como o nascimento de sua filha a pegou "de jeito". Até então eu pintava a maternidade com cores pastel, cheiro de lavanda e música de ninar ao fundo.

Foi a primeira vez que fui surpreendida por um depoimento extremamente honesto. Ela disse: "me incomodava não poder fazer as coisas para mim e ter de fazer para ela." Ela falou abertamente sobre como a perda de independência e liberdade a assustou. Ela estava emprestando sua vida àquele ser adorável. E isso a fez entrar em um looping emocional. Ouvi atenta e condoída. Pouco falei. E nunca mais esqueci dessa história.

É fundamental que a gente veja a maternidade com lentes reais. A rotina materna é duríssima. É suor e lágrima. É trabalho e emoção. E isso tem de ser dito e repetido. É um processo individual e individualizante. Cada um vai sentir “dores e amores” de uma maneira diferente.

Ao tornar-se mãe, a mulher perde a identidade. Nesse artigo ("Why I never wanted to be a mother), a escritora Kasey Edwards diz que a paternidade adiciona identidade ao homem. “Ele é tudo que era antes, além de pai. As mães tendem a perder as atribuições que elas eram antes”, diz. É quando você chega no médico e ele te chama de mãe e não pelo seu nome. Quem nunca ...

Desmascarar a maternidade só vai ajudar a preparar futuras mães. A relação mãe e filho não tem estágio. A partir do momento que o cordão umbilical é cortado, aciona-se o botão enter: é o início de uma nova e insólita relação.

Sou mãe de duas meninas e muitas vezes me pego pensando: “ai que chatice isso tudo” para, minutos depois, ser invadida por uma sensação de contentamento enorme. Porque maternidade é isso: sacrifício puro e simples em troca de um baita aprofundamento da vida e uma satisfação difícil de encontrar em outras relações. Como disse o psicólogo William Doherty, “maternidade é uma atividade de alto custo e de grandes gratificações”. 

O que me intriga é a recusa que muitas pessoas têm em falar sobre isso. O espaço para desabafos autênticos aumentou, sem dúvida alguma. Em grupos de facebook a rodas de amigas. Mas há ainda muita animosidade. (quer um exemplo disso?  UOL tab Filhos da mãe)

Não valorizo oba-oba histérico de internet. Mas quero tentar entender porque é tão difícil para alguns ler ou ouvir que a maternidade tem, sim, um lado B. Busco, sempre, a empatia. E vou arriscar alguns palpites.

# muitas mães-críticas confundem amar o filho com amar a maternidade. São coisas absolutamente diferentes.

# muitas estão blindadas na redoma da idealização que nos foi imposta há séculos pela sociedade. Libertar-se dela é tarefa árdua, mas necessária.

# para muitas mães, filho é projeto de vida. Antigamente, ter um herdeiro era quase uma consequência natural do casamento. Hoje, em muitos casos, isso é planejado, pensado, estruturado. Famílias, então, depositam energia, expectativa e até recursos financeiros demasiados no rebento. Como, então, criticar minha grande obra? 

Então, vamos lá: nenhuma forma de idealização vale a pena. Temos de seguir nessa toada de desconstrução materna porque as consequências só trarão benefícios. E que bom que os apelos agora não são apenas sobre o sofrimento da mãe quando o filho está doente. A demanda atual é mais comportamental e cultural. 

A maternidade escancarada estimula discussões que podem promover uma mudança na sociedade: o papel do pai na rotina de cuidados com o bebê, como conciliar carreira e maternidade, necessidade de uma rede de apoio.

Toda mãe devia levar a maternidade sincera para a pracinha em plena luz do sol. E falar a real em voz alta. Essa mulher estará, então, ajudando uma mãe sentada no banco ao lado. Ou uma futura mãe passando por ali. Assim como minha amiga me ajudou, naquele voo para Paris.