Mãe Mãe Mãe

Olá, Comadres! 

Banalizaram a mãe. A palavra, quero dizer. Minhas filhas pronunciam essas três letrinhas 30 vezes por dia. Ou melhor, por manhã. Tomaram como mantra. Saem pelo corredor falando mãe mãe mãe. Uma verborragia a la Galvão Bueno. Poxa, não faz isso com a mãe, não. A palavra vem do galaico-português madre. Que vem do latim, mater. É coisa fina. Agora tá lá, na boca das minhas filhas como brigadeiro em festa infantil. Tento explicar que não precisam repetir cinco vezes mãe se aquilo que clamam - no caso eu -- está a cinco passos. Vou fazer uma campanha pelo uso comedido da mãe. E sei que isso é só da boca pra fora porque mãe, na real, não tem comedimento. 

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O chamado incessante delas me incomoda real. Não é só o grito, o barulho ou a repetição que me irritam. É também a sensação de que elas acham que devo estar à disposição o tempo todo. Mãe não é delivery 24 horas. Não é serviço full time. Vejo essa situação como uma oportunidade de explicar que elas devem respeitar meu momento, meus afazeres, minha distância (por menor que seja). E respirar. Eitcha meninas ansiosas. Querem tudo para agora.

Alguém se identifica?

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Fala-se de... solidão das mães especiais, maternidade e trabalho, primeira ministra da Nova Zelândia. Tudo logo aqui: 

1.
Um texto muito comovente escrito por Láu Patron -- que mantém a páginaAvante Leãozinho para contar sobre a doença que acomete seu filho -- fala sobre a importância de termos uma rede e como isso é mais complicado para mães com filhos especiais. Imperdível

2.
The New York Times publicou uma matéria extensa sobre discriminação de grávidas pelas empresas. Traz casos reais e cita empresas que até divulgam programas de apoio às executivas, mas que na hora do vamos ver, o apoio não existe.

3.
Fique de olho nesse nome: Jacinda Ardern: ela é a primeira ministra da Nova Zelândia e acabou de ter bebê. Ela está revolucionando a fórmula maternidade - trabalho. Com o bebê no colo, fez um pronunciamento aumentando a licença maternidade e oferecendo ajuda de custo a famílias com filhos pequenos. Um textinho sobre ela aqui.  


Boa leitura e até mais!
Ju Mariz

 

# Newsletter: o banho com a Elisa

 

Quem nunca se trancou no banheiro e deu uma enrolada para prolongar o momento sozinha? Banheiro é lugar sagrado pra mãe, concordam? Espaço onde você se tranca para passar uns minutinhos no celular, ouvir música, tomar um banho tranquilo. Claro que para isso acontecer algumas regras tiveram de ser estabelecidas, né? Porque criança não entende banheiro como um local privado. Aliás, filhos sabem o significado da palavra privacidade? Desconfio que não.

 Quando é hora de ficar sozinha, quando é hora de se doar

Quando é hora de ficar sozinha, quando é hora de se doar

Pois Elisa, minha caçula que faz seis anos no próximo mês, resolveu que quer tomar banho comigo. Pediu uma vez. Eu deixei porque estávamos atrasadas para um compromisso. Pediu a segunda vez. O alarme do meu limite interno soou, mas acabei concordando. Durante o banho olhei pra ela, pra nossa interação, para aquele momento. E entrei no limbo materno: onde termina o meu espaço e começa o dela ? Estabelecer esse limite é fundamental pro nosso equilíbrio.

A dualidade é: quero ter o meu espaço de auto-cuidado, o meu momento sozinha, o meu silêncio. Mas quero também estar com ela porque daqui alguns anos ela não vai querer se ensaboar comigo no chuveiro. Qual é o tamanho da entrega? Qual é o tamanho da doação? Isso, só podemos decidir sozinhas, com uma escuta interna. Não tem manual nem mãe you tuber pra resolver por nós. Mais importante do que ceder ou recurar, é ouvir internamente o que você está querendo. 

Eu me ouvi. E decidi: banhos juntas apenas nos finais de semana. Ela aceitou e prometeu ensaboar todo o boxe. Nâo vejo a hora. 

Ju Mariz
 

#Newsletter: Criar filhos é passar de fase no videogame

Oi, Cos, Ju Mariz falando.

Outro dia uma amiga comentou: "criar filhos é como passar de fase no vídeo game." Ela quis dizer que quando a gente pensa que dominou o "esquema" com os filhos, as demandas mudam. Pulamos de fase, viramos a chavinha, ganhamos novos poderes. Concordo, Dani.

Photo by Pat Kwon on Unsplash

Minhas filhas têm 8 e 5 anos. A rotina mudou porque as duas estão na mesma escola. Ganhei tempo e melhorou a logística. A dinâmica entre elas também é outra. Interesses e assuntos convergem, o que gera união e também discussão. Minha abordagem está tendo que mudar também. E, obviamente, esse game não vem com manual.

E nós, manejando esse console, também sentimos novas ( ou velhas ) necessidades. A maternagem nesse estágio traz outros dilemas. Nossos anseios mudam ou ficam ainda mais latentes. Rolaram novas inquietações aqui dentro. Espero que alguém, desse outro lado aí, me entenda. :)

Uma dessas inquietações resultou em abandonar o home office. Trabalhava em casa há 8 anos. Sempre disciplinadinha e guardando alguns incômodos para debaixo do tapete da sala. Esse ano resolvi colocar a cara pra fora. Havia uma necessidade pessoal por mais inspiração e produtividade, necessidade de cuidar da coluna e, sim, uma sensação de que precisava cortar o cordão umbilical com as meninas (mais uma vez!). Tô feliz nessa nova fase do meu Atari particular. Espero que eu morra poucas vezes, consiga pular todos os obstáculos e encontre o pote de ouro no final da jornada. 

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Uma misturadinha de links para contar o que rolou por aí: :)

# Carga mental. Nesse post aqui uma mãe faz uma carta para o marido mostrando o quanto ela está cansada e precisando de apoio. O texto viralizou, obviamente. 

# Mães empreendedoras. Deu ruim para o Sebrae. Esse texto da Ana Bavon, da Feminaria, denuncia que mães empreendedoras não são bem vindas na Feira do Empreendedor, organizado pelo orgão. 

# Carreira. Nadine Gasman, da ONU Mulheres Brasil, fala sobre a importância de políticas públicas e privadas para promover uma vida melhor às mulheres. Aqui.

# Feminicídio. Somos o 5 país que mais mata mulheres no mundo. E como ficam as crianças,  vítimas invisíveis dessas agressões? Essa matéria explica

 

#Newsletter: Baita dor nas costas

Oi, Cos, Ju Mariz aqui.

Janeiro me brindou com uma dor nas costas paralisante. Teve pronto socorro, injeção na veia, criança de férias em casa, braço formigando, trabalhos adiados, dor, remédio, apoio, vontade de gritar, tentativa de meditar, mau humor, (im) paciência, exames doloridos. Descobri uma hérnia. E entrei para o mundo das C7, espinha, vértebra, cervical, medula, nervo. A dor está 90% zerada. E agora estou mais atenta ao assunto, fazendo fisioterapia, mudando hábitos.

Durante a crise me encontrei com uma fisioterapeuta que me alertou da importância de sentar e se posicionar direito para trabalhar. Passou um filme na minha cabeça. Há oito anos eu sou free lancer. Nesse período tive duas filhas. Adotei, feliz da vida, a rotina nômade de trabalhadora autônoma com o computador no lombo. Trabalhei em diversos cafés da cidade, onde eu reparava apenas na qualidade do café e na belezura do espaço. Não pensava se mesa, cadeira, luz estavam adequados.

Uma outra fisioterapeuta deu muita ênfase à minha rotina materna. Ela também é mãe de dois e acho que sentiu empatia imediata. E comecei a reparar. Nós, mães, devemos ter propensão a sentir dor nas costas. Falo isso no sentido "figurativo da coisa": levamos tudo nos ombros. E também no físico, claro. Pode reparar ao redor. É mãe carregando mochila do filho, outra segurando um outro no colo, mãe com diversas sacolas de supermercado em um braço, o computador no outro.... 

Não quero dizer com isso que todas teremos dor nas costas. Não, você não terá. Mas fica uma lição: vamos nos cuidar mais. Por favor, cuidem-se com amor. 

Isso tudo dito, quero fazer um convite a vocês.

Vamos dar início, no próximo sábado, dia 10, à uma série de bate-papos. Queremos abrir espaço para a conversa, o compartilhamento de ideias, a troca de opiniões. Cada mês um tema diferente. Dia 10 vamos falar de CARGA MENTAL.

Estão todas convidadas para conversar sobre essa demanda exaustiva e muito pouco contabilizada. Como lidar com esses afazeres quase "invisíveis"? Decisões que tomamos entre um compromisso e outro? Qual artifício usar para que isso não mine nossa energia? Queremos ouvir vocês. E nada mais "inibidor de dor nas costas" do que uma roda de mulheres conversando, rindo, trocando ideias, se inspirando, não é?

Se tiver interesse, clique na imagem para mais informações.

 

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#Newsletter: e quando alguém diz que nada vai mudar?

Oi, Cos, Ju Mariz falando. 

E quando alguém fala para você que as coisas não vão mudar? Você pára ou segue em frente?

  Photo by  Ross Findon  on  Unsplash

 Photo by Ross Findon on Unsplash



Estava jantando com meu marido. Sem filhos, sem horário, sem pressa. Tinha vinho, couvert e vela na mesa. O papo estava bom. Não lembro exatamente o que nos levou a conversar sobre paternidade ativa, geração anterior a nossa, patriarcado quando ele soltou a pérola: você sabe que isso não vai mudar, não é? Ele se referia à postura dos homens diante dos filhos. Foi objetivo como sempre é, qualidade que, naquele momento, me fez tomar o restante do vinho numa golada só. Respirei. E comecei a colocar os pensamentos nos devidos escaninhos.

Importante fazer aqui uma ressalva: eu e ele somos opostos. Eu sou emocional,cardíaca, otimista incorrigível. Ele é prático, pragmático, objetivo. Aprendo muito com seu olhar diante do mundo. E sei que o oposto também é verdadeiro. Tem horas que esfregar a realidade na minha cara é um remédio amargo, mas necessário. Em outros momentos preferia que ele me deixasse sonhar feito Poliana.

Mas esse não é um texto sobre minha vida sentimental, certo? É sobre saber como agir quando tomamos um banho de água fria. “As coisas não vão mudar”, disse ele. E aí ?

Seguimos? Desistimos? Paramos? Esperamos?

Decidi continuar. Porque ali na minha frente estava minha micro revolução. Meu marido é o melhor pai que ele pode ser. Ele ouve minhas demandas de mãe e mulher. Ele reflete, acata, concorda, discorda, aprende, ensina. Se não posso mudar o mundo, fico feliz em impactar o homem que divide o couvert comigo.

Então, se alguém falar pra você que nada vai mudar, não desanime. Vem com a gente porque grandes mudanças são feitas também de micro revoluções.

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 LINKS CHEIOS DE MICRO REVOLUÇÕES

Fathers é uma revista polonesa com projeto gráfico bonito e conteúdo que discute a paternidade consciente. Quer conhecer? Clica aqui.

= Dá uma olhada no blog Amaezonia. É feito por duas portuguesas que contam sobre a maternidade real além-mar. Divertido e honesto e já resultou em um livro.

=  Ignacio Socias, diretor de relações institucionais da International Federation for Family Development, defende longas licenças de maternidade e paternidade, contratos de trabalho flexíveis para mães e remuneração para donas de casa. Ele deu uma entrevista ao Estadão que vale a pena ler. Aqui.

Seguimos!
Ju Mariz e Fe Mariz


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#Newsletter: Quem acolhe, colhe

Ju Mariz falando.

Semanalmente levo minha filha caçula à fonoaudióloga. Começamos há três meses. É um problema simples que com dedicação conseguiremos resolver até o final do ano. Enquanto ela faz a sessão, eu fico na sala de espera. Levo livro e caderno de anotações para passar o tempo. Na primeira semana, li o livro, emails e posts nas redes sociais. Na segunda semana me interessei mais pelo entorno. Pacientes que chegavam, profissionais dando orientações, crianças de mãos dadas com suas mães. Na terceira semana o constrangimento me invadiu. Já estava quase pedindo desculpas por estar ali levando minha filha para tratar um problema de fácil resolução. 

A maior parte das crianças tem problemas de audição. Ver uma criança com seus três aninhos se esforçando para se comunicar é tocante. Ouvir conversas sobre a dificuldade de fazê-las colocar o aparelho também me comoveu. Senti uma compaixão enorme por essas mães e sua batalhas diárias. Não importa qual a natureza do problema: mães estão ali, incansáveis e confiantes.

Uma especificamente me chamou a atenção. Ela parecia exausta. Sua filha, de 3 anos, é uma gracinha e faz sessões duas vezes por semana. Eu queria abraçá-la. Abraçar a mãe porque a filha, a essa altura, já estava no meu colo mostrando seu caderno de atividades.

Semana passada resolvi puxar papo. Comecei falando de sapatos infantis. No final ela estava desabafando sobre o desafio de cumprir -- e pagar -- todos os tratamentos da filha. Contou que era um problema hereditário. Tinha dúvidas em relação à escola também. Falou da psicóloga. Sua voz era terna, porém triste.  

Não sei se nossa conversa surtiu algum efeito. Talvez seja pretensão minha achar que esse papo trouxe algum alívio. Só sei que por alguns momentos ela teve uma escuta.

Nossa sociedade está completamente voltada para as crianças e suas necessidades. As mães seguem comosoldadinhos invisíveis cumpridores de seus papéis. Li um texto da escritora Beth Berry, mãe de quatro, e um trecho diz assim: “Conexão rica, segura e autêntica é essencial para nos desenvolvermos. Cultivar essa qualidade de conexão requer coragem e um desejo de sair de sua zona de conforto. O que você mais quer existe lá, do outro lado daquela conversa inicial desajeitada ou daquela apresentação vergonhosa”. Não há mais aldeia. Então, vamos criá-las. E vamos começar acolhendo a mãe. Aquela ali que está bem do nosso lado.

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#Newsletter: o valor de uma mãe em qualquer lugar que ela quiser

Oi, Cos, Ju Mariz falando.

Um texto do economista Gustavo Cerbasi com o título O valor de uma mãe em casa dividiu opiniões semana passada. Eu fui uma das que li e me indignei. Postei no facebook e li todos os comentários. Muito positivo ter a oportunidade de ler e pensar sobre os argumentos favoráveis e desfavoráveis ao texto. Aprendi um bocado. Mas sigo discordando do teor do artigo. E, aqui, quero fazer minhas considerações. Em seguida, coloquei alguns links sobre o tema para complementarmos a compreensão do assunto e seguirmos refletindo.

Não acho que o colunista tenha agido de má-fé. Só penso que ele tem argumentos pouco sólidos e bastante distantes de algumas conversas e mudanças que já estão acontecendo. E ele fala de uma amostragem muito pequena da população. Não há problema nisso, mas seria desejável que ele fizesse essa observação no texto para que contextualizasse melhor seus argumentos.

O texto do Gustavo Cerbasi está aqui, para quem não leu.



Minhas considerações:

1> “A mulher paga pelo risco associado ao gênero” é a justificativa que ele dá para a diferença salarial entre homens e mulheres. Mesmo sendo essa uma máxima corrente no mundo corporativo, o colunista não a critica. Parece concordar. Colocando dessa forma, ignora que um filho, na maioria as vezes, é responsabilidade de um casal. Reforça um conceito conservador e cristalizado que deve, sim, ser combatido. Não podemos ter medo de mudar o status quo. Precisamos dialogar.

2> “Isso explica por que as mulheres se deram melhor em carreiras que oferecem horários de trabalho flexíveis, como terapias e jornalismo.” Sou jornalista. Você só consegue horário flexível no jornalismo se for freelancer.  

3>  “A presença da mulher em casa significa maior capacidade de gerenciar e cuidar da família.” Isso é uma generalização e uma idealização que não faz bem para a discussão em torno da maternidade. Fiquei pensando nas minhas amigas que desempenham funções importantes em empresas -- trabalhando muito -- e que têm uma habilidade incrível de deixar tudo em ordem em casa. E pensei também naquela que está realmente cansada da rotina doméstica e, por causa dessa carga mental, não está desempenhando tão bem esse papel de gerenciar e cuidar da família. Todas elas precisam de suas redes, precisam de acolhimento e precisam, sobretudo, de terem o direito de errar, se cansar e não idealizar o seu papel.

4> “Não é exagero, portanto, afirmar que uma mãe em casa vale em torno de R$ 10 mil a R$ 12 mil por mês. A família não percebe esse valor na conta, mas em ganho de bem-estar. Torna-se uma família mais rica, com filhos mais bem-educados.” Esse cálculo não me diz nada. É pouco? É muito? Quanto vale o gerenciamento de tudo? E se a mulher não tem babá, motorista etc? Ganharia mais? Ganharia menos? Meu incômodo também está na sugestão dele quanto à motivação que leva uma mãe a ficar em casa: a economia financeira. Essa motivação é legítima se for de comum acordo do casal. Mas me parece pífia se deixar a mulher insatisfeita ou frustrada. E falar que os filhos são mais bem educados quando a mãe está em casa é uma falácia. Podem ser. E podem não ser. Todas nós sabemos que educar uma criança é bem mais complexo.

Ficar em casa ou ir para o mercado de trabalho é uma decisão exclusivamente da mulher, em comum acordo com sua família. A motivação tem de ser interna. Crianças são saudáveis emocionalmente quando mães estão alinhadas com suas necessidades e desejos. Quando são honestas com sua essência. Para mim, esse é o caminho. Respeito o percurso reflexivo de Gustavo Cerbasi, que é um consultor financeiro. Faz sentido para ele. Não faz sentido para mim.

A seguir, alguns links com a repercussão do assunto:

A jornalista Adriana Salles Gomes escreveu um texto que destrincha, na minha opinião de uma forma mais ampla, o tal custo "mãe em casa". Aqui.

O Catraquinha também repercutiu o assunto. Aqui.

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