#Newsletter: o valor de uma mãe em qualquer lugar que ela quiser

Oi, Cos, Ju Mariz falando.

Um texto do economista Gustavo Cerbasi com o título O valor de uma mãe em casa dividiu opiniões semana passada. Eu fui uma das que li e me indignei. Postei no facebook e li todos os comentários. Muito positivo ter a oportunidade de ler e pensar sobre os argumentos favoráveis e desfavoráveis ao texto. Aprendi um bocado. Mas sigo discordando do teor do artigo. E, aqui, quero fazer minhas considerações. Em seguida, coloquei alguns links sobre o tema para complementarmos a compreensão do assunto e seguirmos refletindo.

Não acho que o colunista tenha agido de má-fé. Só penso que ele tem argumentos pouco sólidos e bastante distantes de algumas conversas e mudanças que já estão acontecendo. E ele fala de uma amostragem muito pequena da população. Não há problema nisso, mas seria desejável que ele fizesse essa observação no texto para que contextualizasse melhor seus argumentos.

O texto do Gustavo Cerbasi está aqui, para quem não leu.



Minhas considerações:

1> “A mulher paga pelo risco associado ao gênero” é a justificativa que ele dá para a diferença salarial entre homens e mulheres. Mesmo sendo essa uma máxima corrente no mundo corporativo, o colunista não a critica. Parece concordar. Colocando dessa forma, ignora que um filho, na maioria as vezes, é responsabilidade de um casal. Reforça um conceito conservador e cristalizado que deve, sim, ser combatido. Não podemos ter medo de mudar o status quo. Precisamos dialogar.

2> “Isso explica por que as mulheres se deram melhor em carreiras que oferecem horários de trabalho flexíveis, como terapias e jornalismo.” Sou jornalista. Você só consegue horário flexível no jornalismo se for freelancer.  

3>  “A presença da mulher em casa significa maior capacidade de gerenciar e cuidar da família.” Isso é uma generalização e uma idealização que não faz bem para a discussão em torno da maternidade. Fiquei pensando nas minhas amigas que desempenham funções importantes em empresas -- trabalhando muito -- e que têm uma habilidade incrível de deixar tudo em ordem em casa. E pensei também naquela que está realmente cansada da rotina doméstica e, por causa dessa carga mental, não está desempenhando tão bem esse papel de gerenciar e cuidar da família. Todas elas precisam de suas redes, precisam de acolhimento e precisam, sobretudo, de terem o direito de errar, se cansar e não idealizar o seu papel.

4> “Não é exagero, portanto, afirmar que uma mãe em casa vale em torno de R$ 10 mil a R$ 12 mil por mês. A família não percebe esse valor na conta, mas em ganho de bem-estar. Torna-se uma família mais rica, com filhos mais bem-educados.” Esse cálculo não me diz nada. É pouco? É muito? Quanto vale o gerenciamento de tudo? E se a mulher não tem babá, motorista etc? Ganharia mais? Ganharia menos? Meu incômodo também está na sugestão dele quanto à motivação que leva uma mãe a ficar em casa: a economia financeira. Essa motivação é legítima se for de comum acordo do casal. Mas me parece pífia se deixar a mulher insatisfeita ou frustrada. E falar que os filhos são mais bem educados quando a mãe está em casa é uma falácia. Podem ser. E podem não ser. Todas nós sabemos que educar uma criança é bem mais complexo.

Ficar em casa ou ir para o mercado de trabalho é uma decisão exclusivamente da mulher, em comum acordo com sua família. A motivação tem de ser interna. Crianças são saudáveis emocionalmente quando mães estão alinhadas com suas necessidades e desejos. Quando são honestas com sua essência. Para mim, esse é o caminho. Respeito o percurso reflexivo de Gustavo Cerbasi, que é um consultor financeiro. Faz sentido para ele. Não faz sentido para mim.

A seguir, alguns links com a repercussão do assunto:

A jornalista Adriana Salles Gomes escreveu um texto que destrincha, na minha opinião de uma forma mais ampla, o tal custo "mãe em casa". Aqui.

O Catraquinha também repercutiu o assunto. Aqui.

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