Uma vida no ritmo das marés

Por Juliana Mariz

Tomar qualquer decisão é difícil. Fica mais complicado ainda quando envolve filhos, companheiro, trabalho. A comadre Martha Kater tocava duas empresas em São Paulo, uma marca de joias e um coworking, quando resolveu tomar uma atitude frente a uma inquietação com a qual lidava fazia três anos. Ela não gostava de seu estilo de vida paulistano. Queria ficar mais perto das filhas, desacelerar a vida. Resolveu, então, mudar-se para Barra Grande, na Bahia, há quatro meses.

O movimento que Martha fez é inspirador. Não significa que funciona para todos. Não, não vá fazer as malas, comprar passagens. O que vale mesmo é olhar para o processo que ela vivenciou. A inspiração está no que ela fez: encarou medos e transformou riscos em oportunidades. 

 

Co.madre: Por que você resolveu mudar para Barra Grande com a família ?
Nunca me identifiquei de verdade com o ritmo de vida em São Paulo. Sentia falta de mais momentos de contemplação, de uma rotina mais próxima das minhas filhas, de um estilo de vida mais simples e fácil de gerenciar. Acabei encontrando isso em Barra Grande, que além de ser um cantinho do paraíso, ainda tem um escola waldorf comunitária super legal e um "mix" de pessoas que vieram de várias partes do mundo em busca de qualidade de vida.

Qual foi a principal dificuldade ao decidir mudar-se?
Foi "bancar" essa decisão. A primeira parte foi conhecer melhor os meus medos e enxergar essa ida como uma grande oportunidade e não um risco. A segunda parte foi me manter segura diante das reações de amigos e familiares. Sempre tem aqueles questionamentos "e se acontecer alguma coisa e você precisar de hospital?" ou "O que vocês vão fazer na Bahia, virar hippie?" Eu achava que não tinha resposta para essas perguntas e quando cheguei aqui comecei a perceber que estas respostas já estavam dentro de mim há muito tempo. Eu não quero viver prisioneira do medo, eu não vou levar uma vida de louco em São Paulo para estar perto dos hospitais. Prefiro o risco de viver uma vida dos sonhos mas longe do hospital... Da mesma forma que hoje tenho a segurança de que não virarei hippie, nem ficarei sem trabalho. Já estou envolvida em vários projetos que me movem diariamente.

Chegando aí, qual foi o principal desafio que enfrentou?
O principal desafio foi encontrar uma casa legal e incorporar esse estilo mais relax que sempre almejei. Estava tudo lindo e maravilhoso, mas parecia que internamente o ritmo ainda era o de São Paulo. Daí começamos a nos descondicionar aos poucos, nos tornando conscientes de que não precisávamos mais dessa pressa e certeza sobre tudo. A falta de controle das coisas passou a ser uma segurança. O fato de achar que eu podia controlar tudo me distanciava de uma conexão maior com as coisas que eu acreditava.

Como suas filhas se adaptaram?
As meninas se adaptaram muito rápido! A Luíza, com 2 anos, ficou um pouco confusa no começo, perguntando em cada lugar que íamos se aquela era a nossa casa. Mas aos poucos foi entendendo e curtindo e se soltando mais e mais. A Letícia, de 5 anos, curtiu na hora. No primeiro dia de escolinha já me "liberou" e por lá ficou. Fez várias amizades e tem amado essas descobertas de subir na árvore, catar flores e conchas, pegar bicho de pé etc...

Qual está sendo o principal ganho de morar aí?
Liberdade. Sem dúvida nenhuma essa é nosso maior ganho aqui. Sinto uma mudança enorme nas meninas, estão mais confiantes, mais sociáveis. Pegam minhoca na mão, dão comida para as galinhas, divagam sobre as marés e correntezas do rio e do mar. Contemplam diariamente o pôr do sol e o canto dos passarinhos. É muito lindo ver o mundo que estão descobrindo! Para nós, pais, sem dúvida o maior ganho é ver esse "desabrochar" das nossas filhas, mas sentimos também essa tranquilidade em relação a segurança, a uma vida menos cara e cheia de estrutura. Outra coisa que estamos amando é conhecer pessoas tão interessantes, que vieram de tantas partes do mundo, cada um com sua história e cheio de experiências para compartilhar.

Como conheceu a escola e como você está envolvida com ela? 
Conhecemos a escola Jardim do Cajueiro quando viemos visitar Barra Grande. Estávamos já há três anos nessa ânsia de sair de São Paulo, mas sem saber para onde. Resolvemos fazer uma "mini” lua de mel, e viemos para a Península. Aqui fiquei sabendo da escola e fomos visitar! Ficamos tão encantados, que mesmo sem saber de nada, fizemos a inscrição da Letícia para o próximo ano. E assim foi. A cada dia ficamos mais encantados com esse projeto. 

Por que?

A escola é comunitária, ou seja, é mantida pelos pais dos alunos e vive muito de doações de pessoas que se apaixonam pelo projeto. A taxa de analfabetismo e pobreza aqui chega a 70% da população, por isso a importância dessa escola comunitária que dá acesso a educação para pelo menos 80 crianças carentes. É lindo ver como um projeto desse sustenta há 10 anos o sonho de tantas crianças que não têm nenhuma perspectiva. Vivem dificuldades de violência doméstica ou trabalham desde pequenas para ajudar os pais...De repente chegam em uma escola onde os professores incentivam o brincar, trabalham com o lúdico e o simbólico de cada um, ensinam bordado, música. Falam sobre o afeto, oferecem uma comida super caprichosa e cheia de amor, e ensinam ter gratidão por isso tudo. É realmente muito emocionante se deparar com isso no seu dia a dia.

Conte um pouquinho a dificuldade que a escola está passando atualmente.

Agora com a crise financeira a escola tem perdido muitas doações, ao mesmo tempo que tem crescido muito. Então unimos todos os pais, professores, apoiadores para não deixar esse sonho morrer. Estamos montando um projeto de geração de renda através da produção de granola e óleo de coco. O projeto tem caminhado bem, mas ao mesmo tempo bate o desespero de ele não dar resultado na velocidade que precisamos. A escola hoje tem dificuldade de pagar professores e impostos, então, em paralelo com o projeto, ficamos todos tentando arrecadar através de bazar, oficinas e doações. A escola não tinha fossa. Juntamos essa problemática com uma oportunidade de geração de renda. Um dos pais que conhece bastante sobre permacultura vai fazer uma fosse ecológica, filtrada pela raiz de bananeiras. E o legal é que vai virar uma oficina, onde quem quer aprender contribui para a construção da escola e ainda colabora para que ela se mantenha viva! A gente passa uns apertos, mas descobre que em tudo, tem mais bem do que mal. Fizemos também, de última hora, um site novo da escola onde quem quiser pode doar pelo paypal no formato que lhe parecer mais conveniente. Foi uma forma de incentivar as pessoas a colaborarem com mais praticidade e menos burocracias... Enfim, estamos nessa luta, angustiados com o que o futuro nos reservará, mas extremamente gratos e felizes por estarmos vivenciando essa experiência comunitária cheia de sentido e aprendizados!