Entrevista com Camila Haddad, especialista em economia colaborativa

Camila Haddad: “Sinto que 2016 vai ser um ano de trabalho intenso de construção.”

Camila Haddad: “Sinto que 2016 vai ser um ano de trabalho intenso de construção.”

Foi por causa de um freela que fiz sobre o Cinese que conheci Camila Haddad, uma das fundadoras da plataforma de aprendizagem colaborativa. A admiração virtual virou real quando começamos o processo de consultoria com ela e Giovana Camargo, que também faz parte do trio fundador do Cinese (Anna Haddad completa a tríade).

Com elas aprendemos ( eu e Fe Mariz) uma porção de ferramentas bacanas para usarmos no Comadre, tivemos noção teórica sobre redes e sobre a arte de organizar encontros, falamos sobre mídias sociais, alavancamos e enterramos ideias e mais ideias. Mas o aprendizado foi muito maior do que o palpável. A convivência, que começou em junho de 2015, nos trouxe inspiração e disposição para seguir.

Administradora por formação, Camila é especializada em economia colaborativa (entrevista com ela sobre isso aqui), rede, educação livre. Sua história e sua busca por autonomia e conhecimento são admiráveis.

A seguir, a entrevista com Camila, que falou sobre feminismo, 2016 e colaboração.


Co.madre: 2015 foi o ano das mulheres? Como você enxerga essa “primavera feminista”? 

Acho que 2015 foi sim um ano de muitas conquistas para nós. A Internet teve um papel importante, pois nos trouxe campanhas como a Chega de Fiu fiu, #meuprimeiroassedio e #meuamigosecreto. Acho que todas elas tem sim um papel importante de evidenciar o machismo nosso de cada dia, mas vejo que uma das maiores conquistas é a de nos enxergarmos umas nas outras e entendermos que a nossa dor não é individual, mas coletiva. Por isso tantas mais de nós passaram a se reconhecer como feministas. Eu não preciso ser militante organizada, basta eu entender a dimensão política de ser mulher. Quando a gente se fortalece a partir do feminismo entende que fazer as próprias escolhas, independentemente das expectativas limitantes de gênero, é necessariamente um ato de resistência. Mas ainda temos um longo caminho a percorrer.

Co.madre: Você acha que as mulheres, por causa de sua natureza mais agregadora, estão mais aptas a viver em um mundo colaborativo? 

Acho que as caraterísticas que a gente entende como femininas – o acolhimento, o cuidado e a intuição – são essenciais para a construção de um mundo mais colaborativo. Não é à toa que vemos tantas mulheres à frente de coisas verdadeiramente disruptivas. Mas acredito que isso que chamamos de feminino é menos inato e mais culturalmente introjetado. Então pode – e deve – ser presente nos homens tanto quanto nas mulheres.

Co.madre:  Na sua opinião, qual é a principal empecilho que a mulher encontra para empoderar-se?

Acho que os boicotes vem de todos os lados, especialmente porque a gente se forma em uma cultura, mas também forma a cultura na medida em que replica ou não certos comportamentos. Eu, pessoalmente, tive que me distanciar fisicamente de uma família conservadora e de uma cidade provinciana para conseguir começar a entender quem eu era e o que eu queria fazer da minha vida.

Co.madre: Você empreende com o Cinese. Qual a maior dificuldade que encontrou nesse caminhar?

Acho que a minha maior dificuldade foi me libertar de um modelo de sucesso imposto. Minha formação em administração e toda a literatura de empreendedorismo me diziam que o caminho certo era o do crescimento, o da liderança. Oferecer um serviço competitivo. A parte mais difícil nos últimos três anos foi entender que a minha empresa, o meu projeto, tem que servir a mim, e não eu a ele. E que há mil formas possíveis de se empreender.

Co.madre: O que achou de 2015 e o que espera de 2016?

Ouvi de uma professora da USP no seminário Cidades Rebeldes que, no momento de mundo em que estamos, muita gente segue o caminho da emancipação ou o do fascismo. Acho que 2015 teve muito dos dois. Vimos um movimento de emancipação das mulheres, dos secundaristas em São Paulo, vimos novos modelos de economia surgindo, movimentos de ocupação do espaço público, hortas urbanas. Mas também vimos muito ódio, muita manipulação de informação, tomadores de decisão nas esferas pública e privada usando o poder em benefício próprio. Quando confrontados com uma crise, podemos apontar dedos e encontrar culpados. Ou nos engajarmos na construção do novo. Sinto que 2016 vai ser um ano de trabalho intenso de construção.

Co.madre: O que você diria para uma plateia lotada de comadres, ou seja, mães que tentam se equilibrar entre a maternidade e a vida produtiva?

Gosto de usar os princípios do “open space” como mantras para a vida:

Quando começar, começa.

Quem veio é a pessoa certa.

Aconteceu o que tinha que acontecer.

Quando terminar, acaba.