No caminho havia um propósito

Por Juliana Mariz

Se houvesse um ranking das palavras mais pronunciadas em 2016 acho que PROPÓSITO estaria entre os top 5. Vivemos a era do “fazer com propósito”. De tempos em tempos circulam convites para bate-papos sobre o assunto. Ou então, pula na minha timeline alguém oferecendo macetes para encontrar o dito-cujo. Há livros, textões, textinhos, resenhas… Até mesmo em uma recente Consultoria Coletiva que participamos o tema foi discutido intensamente.

Daí que fiquei pensando no assunto. Afinal, o que é propósito? Por que precisamos dele? De onde vem, para onde vai? Essas e outras reflexões desencadearam algumas conversas com pessoas que trabalham com isso e outras que estudam e pesquisam. E esse bololô todo rendeu essa sopa de letrinhas aqui. Espero que gostem.

 

De acordo com Mário Sérgio Cortella, a palavra propósito, em latim, carrega o significado “daquilo que eu coloco adiante”. “Uma vida com propósito é aquela em que eu entenda as razões pelas quais faço o que faço e pelas quais claramente deixo de fazer o que não faço”, escreve Cortella no livro “Por que fazemos o que fazemos.”  

Segundo Alexandre Teixeira, jornalista, autor do livro Felicidade S.A., “propósito é algo intuitivo. É encontrar um significado para o trabalho que vá além do salário no final do mês. No melhor cenário, pode ser uma causa. Mas muitas vezes é simplesmente sentir que o esforço e o tempo que você dedica a uma atividade fazem sentido, têm algum impacto”.

Alexandre estuda a evolução da nossa relação com o trabalho e alimenta um site super bacana sobre o assunto. Para ele, propósito é uma das duas demandas mais importantes do trabalhador contemporâneo - sobretudo dos mais jovens. “A outra é pertencimento, fazer parte de alguma coisa que seja maior do que nós mesmos, ter prazer de fazer parte de uma equipe quando a gente sente que todo mundo no time está remando numa mesma direção. Propósito é o anseio que nós também temos de que essa direção seja virtuosa e tenha um impacto positivo sobre as pessoas que a gente atende, as comunidades onde a gente atua, a sociedade em geral.”

Luciana Kimi, facilitadora de processos de inovação na empresa Thempero e terapeuta especialista em ayurveda, entende que o caminho do propósito é o único capaz de nos deixar em harmonia e saudáveis. “Todos nós nascemos com um propósito e viemos vivê-lo nessa vida. Como não somos ensinados a nos olharmos internamente acabamos perdendo o contato com nossa essência. Somos treinados desde pequenos a nos movimentar através do desejo do outro e não por nós mesmos. Abandonar ensinamentos e crenças que ouvimos de pessoas próximas, como pai e mãe, reflete diretamente no negócio, na empresa e nas relações que cultivamos.”

O fato de estarmos discutindo o tema, mesmo que seja na mesa de bar, deve dizer algo sobre o momento pelo qual passa a nossa sociedade. Apesar de rejeitar rótulos, Alexandre se rendeu e chamou esse momento de “ideologia do propósito.”  “Talvez a gente esteja falando muito disso no trabalho e nos negócios porque está tudo muito focado no dinheiro, e as pessoas estão cansadas disso. Mas desconfio de mudanças que a nossa sociedade vive. Penso que são mais as mudanças que a nossa sociedade gostaria de viver. Porque, convenhamos, até agora mudou muito pouco. A geração Y colocou essa ideologia no espírito do tempo. Quem não fala esta língua hoje, soa velho”.

A consultora Alessandra Figueroa acha que o mérito é, exatamente, das novas gerações. “A sociedade está em transição. Valores como empatia e ética estão em alta. Trabalhar por trabalhar está sendo questionado pelos mais novos. Além disso, conceitos como colaboração e nova economia também estão em alta e acionam essa ideia da vida fazer sentido com algum propósito”, afirma. Alessandra e a sócia, Elisa Motta, fundaram a Engenho, empresa que ajuda pessoas a se reconectarem com seu propósito. 

Eu, pessoalmente, acredito que trabalhar em prol de um propósito faz as coisas fluírem mais. Do contrário, não teria criado o Co.madre tampouco feito jornalismo. Quando, aos dezessete, dezoito anos, me inscrevi no vestibular de Comunicação tinha algo em mente: mudar o mundo. Eu achava que com o jornalismo poderia conseguir fazer a diferença na vida das pessoas. Esse era o meu propósito e, por um certo tempo, acho que consegui realizar um tiquinho desse sonho porque trabalhei em veículos que me deram essa oportunidade. Mas aqui acho que estou confundindo propósito com vocação, não?

Vamos esclarecer. “O propósito te guia em direção a sua vocação. A vocação permite que tudo o que você tem de melhor, seus talentos e aptidões, sejam utilizados para realizar seu propósito”, opina Alessandra“A vocação é da sua natureza, não se altera. O propósito é a intenção deste talento, como se fosse um objetivo, um fim para esta vocação”, completa Elisa.

No duelo entre vocação e propósito, Alexandre Teixeira lembra da expressão “empreendedorismo por vocação.” Enquanto fazia entrevistas para seu segundo livro, “De dentro pra fora”, ele ouviu a seguinte frase de um dos personagens: “cada um, afinal de contas, enxerga no mundo aquilo que tem vocação para enxergar.” Alexandre concluiu, então, que vocação é um impulso mais natural, uma visão de mundo. Enquanto propósito é algo mais circunstancial, algo que atribui significado. “Para me usar como exemplo, eu diria que tenho vocação para o jornalismo. E que hoje o meu propósito é ajudar pessoas físicas e jurídicas a atuar com mais propósito, por meio da produção e da disseminação de conteúdo com base em ferramentas jornalísticas. Nesse sentido, o ideal é que a vocação esteja a serviço de um propósito”, diz Alexandre.

Muitas pessoas não conseguem aderir ao movimento da vida com propósito justificando as “contas a pagar”. Obviamente que esse obstáculo existe para aqueles que precisam correr atrás do básico para viver. Por outro lado, há muitas pessoas questionando o estilo de vida que produz para consumir e acumular. E para essas cada vez mais faz sentido ter uma razão para sair da cama na segunda-feira. Segundo Elisa, estamos ainda vivendo uma transição.  “Viver no propósito precisa e deve ser sustentável. É um processo, quanto mais pessoas buscarem seus lugares no mundo, mais a roda vai girar, mais gente vai buscar, mais sentido faz e mais gente ganha.”

Vejo que uma grande dificuldade das pessoas é materializar o dito propósito. Ou seja, colocar em prática a sua essência, a sua autenticidade. De nada vale ser apenas algo etéreo ou a frase colada no post it em cima da mesa de trabalho. Em sua coluna mensal na revista Cláudia, a jornalista e estudiosa do comportamento feminino Cynthia de Almeida bem resumiu o dilema: “Nenhuma geração resolveu a equação. Millenials: não basta ouvir o coração, é preciso concretizar a aspiração. Geração X e Boomers: não basta cumprir o que os outros esperam, é preciso fazer o que se aproxima do próprio desejo, ter clareza de sua essência.” E, então, em qual fase dessa encruzilhada você está?